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Creche: a fase mais barata da granja é a que mais decide a terminação

Leitão; Guilherme
21 de jul.
6 min de leitura

Atualizado: 25 de jul.

Produtor observa leitões recém-desmamados em baia suspensa de creche em granja de suínos
O leitão descrechado precisa ser visto como um insumo para a fase mais longa e cara do ciclo, a terminação.

Por Leitão, analista de inteligência de margem na suinocultura, Artemis.


De cada real gasto para produzir um cevado, cerca de 12 centavos são gastos na creche.

É o menor bloco de custo do ciclo completo. Menor que a maternidade, perto de 24%, e muito menor que a terminação, que responde por cerca de 63%.

É também a fase que usa as rações mais caras do plantel, a que mais varia de granja para granja, e a que mais decide o resultado da terminação, sem que isso apareça na conta.


A creche é o menor bloco de custo do ciclo

O custo de produzir um suíno é acumulativo, e cada fase carrega as anteriores. Fazendo um recorte regional, nas granjas de ciclo completo que a Artemis acompanha em Minas Gerais, a escada fica assim:

  • Nascido vivo: cerca de R$ 83

  • Leitão desmamado: cerca de R$ 169

  • Leitão descrechado: cerca de R$ 255

  • Cevado terminado: cerca de R$ 696

Isolando o que cada fase acrescenta, a maternidade responde por aproximadamente 24% do custo final do cevado, a creche por 12% e a terminação por 63%.

Passar um leitão pela creche custa, na maior parte das granjas, algo em torno de R$ 88. É pouco dinheiro perto dos R$ 440 da terminação. E é exatamente por ser pouco dinheiro que quase ninguém olha para ele.


E é a fase com a ração mais cara do plantel

A ração de creche é, por quilo, a mais cara que a granja compra depois da maternidade.

O motivo é fisiológico e conhecido no setor. O leitão recém-desmamado tem sistema digestivo imaturo e acabou de sair de uma dieta líquida. As rações pré-inicial e inicial precisam ser construídas com ingredientes de altíssima digestibilidade, como fontes lácteas, plasma, aditivos e enzimas. Nada disso é barato, e nada disso pode ser substituído sem consequência nessa janela específica.

Aí está o paradoxo que define a fase. É a ração mais cara do sistema dentro do bloco de custo mais barato do sistema. A creche dura poucas semanas e o animal ainda é pequeno, então o volume consumido é baixo. Preço alto por quilo, pouco quilo consumido.

O efeito prático é perverso. Quando a granja procura onde cortar, ela olha os grandes números, e a creche nunca é um grande número. É pequena demais para chamar atenção e cara demais para ser desprezada.


Duas granjas, a mesma creche no papel

Duas granjas da base ajudam a mostrar o que o custo esconde. Ambas em Minas, ciclo completo, na faixa de 1.000 a 1.500 matrizes. Operações comparáveis.

No fechamento de 2025, as duas gastaram praticamente o mesmo na creche, cerca de R$ 104 e R$ 102 por leitão. As duas descrecharam o animal com peso quase igual, em torno de 22 quilos. E as duas venderam o cevado no mesmo peso final, perto de 125 quilos.

Três números idênticos: o quanto se gastou na creche, o quanto o leitão ganhou por esse dinheiro, e o peso com que o animal foi vendido. Por qualquer um deles, as duas creches são gêmeas.

Não eram.


O que o custo não mostrava

As duas creches produziram animais diferentes, e a diferença estava em dois números que não são o custo.

Uma converteu ração em carne a uma taxa de 1,47. A outra, a 1,80. A segunda queimou 22% mais ração para produzir o mesmo quilo de leitão. E uma perdeu 1,2% dos animais na fase, enquanto a outra perdeu 3,6%, quase o triplo.

Nada disso apareceu no custo por leitão, que era praticamente igual nas duas. Um leitão que converteu bem e sobreviveu, e um leitão que converteu mal e veio de um lote que perdeu o triplo de animais, saíram da creche custando o mesmo. O custo por animal não distingue um leitão bem-feito de um leitão mal-feito.


Onde a diferença apareceu

O que não apareceu na creche apareceu cem dias depois, na terminação.

A granja com a creche mais eficiente terminou o cevado gastando cerca de R$ 148 a menos por animal que a outra, com o animal saindo no mesmo peso. E fechou o ano com margem de R$ 2,01 por quilo, contra R$ 1,00 da outra. O dobro, algo em torno de R$ 126 a mais por animal vendido.

O dinheiro gasto na creche foi o mesmo. O resultado, cem dias e uma fase depois, foi o dobro.

É preciso ser honesto sobre o que isso prova e o que não prova. São duas granjas, não a base inteira, e a granja de pior resultado é pior em várias frentes, não só na creche. Não dá para dizer que a creche, sozinha, causou a diferença na terminação. O que dá para dizer com segurança é outra coisa, e é o suficiente. Os sinais de que a terminação sairia mais cara já estavam na creche. Estavam na conversão e na mortalidade. Só não estavam no custo, que era o único número que as duas granjas olhavam da fase.


Por que isso não aparece no controle da granja

O motivo não é falta de controle. É que os sistemas de controle são organizados de um jeito que não permite enxergar essa conexão.

O sistema zootécnico fecha a creche com os indicadores da creche, como conversão, mortalidade e peso de saída. Fecha a terminação com os indicadores da terminação. Cada fase é avaliada contra as próprias metas, e cada uma pode parecer razoável isoladamente.

O financeiro, por sua vez, fecha por período, seja mês, semestre ou ano. Não fecha por lote.

Falta a pergunta que atravessa os dois. A conversão e a mortalidade da creche deste lote têm relação com o custo da terminação dele? Os números para responder existem, e as duas granjas tinham todos eles. O que não existe é a ligação entre eles. Cada número está guardado em um sistema diferente, fechado num momento diferente, avaliado contra uma meta diferente. Ninguém liga a creche de um lote à terminação daquele mesmo lote.


O que fazer com isso

O trabalho técnico da creche é do veterinário e do nutricionista, e envolve sanidade, ambiência, densidade, manejo de desmame e transição de dieta. Eles resolvem isso melhor do que ninguém, e não é a Artemis quem vai dizer como reduzir a mortalidade ou melhorar a conversão de uma creche.

O que costuma faltar é anterior, e não é técnico. É enxergar que a conversão e a mortalidade da creche não são um assunto encerrado quando a fase fecha. São um aviso sobre o custo que vai chegar na terminação. E que o custo da creche, sozinho, não dá esse aviso. Duas creches que custam o mesmo podem estar preparando terminações que custam R$ 148 de diferença por animal.

Por isso a creche é a fase mais subestimada da granja. Não porque custa pouco, porque ela custa pouco mesmo. Mas porque é onde a granja mais se diferencia, com o menor investimento em jogo, e onde o único número que quase todo mundo acompanha é justamente o que menos conta a história.


Perguntas frequentes


Quanto custa a fase de creche na suinocultura?

Nas granjas acompanhadas pela Artemis em Minas Gerais, passar um leitão pela creche custa em torno de R$ 88, com variação de cerca de R$ 60 a mais de R$ 130 entre operações. Isso representa aproximadamente 12% do custo total do cevado.


Qual fase da produção de suínos custa mais?

A terminação, com cerca de 63% do custo total do cevado. A maternidade responde por aproximadamente 24% e a creche por 12%. O custo é acumulativo, ou seja, cada fase carrega as anteriores.


Por que a creche decide o custo da terminação?

Porque a qualidade do leitão que sai da creche, medida pela conversão alimentar e pela mortalidade da fase, determina como a terminação vai se comportar. Duas granjas podem gastar o mesmo na creche e entregar leitões muito diferentes. Em um caso observado pela Artemis, duas granjas comparáveis gastaram praticamente o mesmo na creche, mas uma teve conversão de 1,47 e mortalidade de 1,2% e a outra 1,80 e 3,6%. Cem dias depois, a terminação de uma custou cerca de R$ 148 a mais por animal.


Por que a ração de creche é mais cara?

Porque o leitão recém-desmamado tem sistema digestivo imaturo e acabou de sair de uma dieta líquida. As rações pré-inicial e inicial exigem ingredientes de altíssima digestibilidade, como fontes lácteas, plasma, aditivos e enzimas, que elevam o custo por quilo. Como a fase é curta e o animal é pequeno, o volume consumido é baixo e o custo total da fase acaba sendo o menor do ciclo.

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