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Creche: a fase que custa 12% e decide os 63% da terminação

  • Leitão; Guilherme
  • há 22 horas
  • 5 min de leitura
Produtor observa leitões recém-desmamados em baia suspensa de creche em granja de suínos
O leitão descrechado precisa ser visto como um insumo para a fase mais longa e cara do ciclo, a terminação.

Por Leitão — analista de inteligência de margem na suinocultura, Artemis.


De cada real gasto para produzir um cevado, cerca de 12 centavos são gastos na creche.

É o menor bloco de custo do ciclo completo. Menor que a maternidade, que fica perto de 24%, e muito menor que a terminação, que responde por cerca de 63%.

É também a fase que usa as rações mais caras do plantel, a que mais varia de granja para granja, e a única que ninguém aperta.


A creche é o menor bloco de custo do ciclo

O custo de produzir um suíno é acumulativo, e cada fase carrega as anteriores. Nas granjas que a Artemis acompanha, a escada fica assim:

  • Nascido vivo: cerca de R$ 83

  • Leitão desmamado: cerca de R$ 169

  • Leitão descrechado: cerca de R$ 255

  • Cevado terminado: cerca de R$ 696

Isolando o que cada fase acrescenta: a maternidade responde por aproximadamente 24% do custo final do cevado, a creche por 12% e a terminação por 63%.

Passar um leitão pela creche custa, na maior parte das granjas, algo em torno de R$ 88. É pouco dinheiro perto dos R$ 440 da terminação. E é exatamente por ser pouco dinheiro que quase ninguém olha para ele.


E é a fase com a ração mais cara do plantel

A ração de creche é, por quilo, a mais cara que a granja compra depois da maternidade.

O motivo é fisiológico e conhecido no setor. O leitão recém-desmamado tem sistema digestivo imaturo e acabou de sair de uma dieta líquida. As rações pré-inicial e inicial precisam ser construídas com ingredientes de altíssima digestibilidade — fontes lácteas, plasma, aditivos, enzimas, promotores. Nada disso é barato, e nada disso pode ser substituído sem consequência nessa janela específica.

Aí está o paradoxo que define a fase: é a ração mais cara do sistema dentro do bloco de custo mais barato do sistema. Não é contradição. A creche dura poucas semanas e o animal ainda é pequeno, então o volume consumido é baixo. Preço alto por quilo, pouco quilo consumido.

Só que o efeito prático dessa aritmética é perverso. Quando a granja procura onde cortar, ela olha os grandes números — e a creche nunca é um grande número. Ela é pequena demais para chamar atenção e cara demais para ser desprezada.


É também a fase onde as granjas mais se diferenciam

O custo de passar um leitão pela creche vai de cerca de R$ 60 a mais de R$ 130 entre as granjas que acompanhamos. Mais que o dobro.

Esse é o dado que mais me chamou atenção quando abri a base por fase. Não é a maior diferença em valor absoluto — a terminação, sendo cinco vezes maior, tem diferenças em reais bem mais altas. Mas é a maior diferença proporcional das três fases. Na maternidade e na terminação, a distância entre a granja mais barata e a mais cara é menor, relativamente, do que na creche.

A leitura é direta: a fase que ninguém aperta é a que mais separa as granjas. Onde há atenção, há convergência. Onde não há, cada operação segue seu próprio caminho e as distâncias se abrem.


O erro da creche é pago na terminação

O que sai da creche determina como a terminação vai se comportar.

Um lote que sai mais leve, ou com desafio sanitário, ou com consumo mal estabelecido, não vira um problema de creche. Vira um problema de terminação — em dias a mais para chegar ao peso, em conversão pior na reta final, em mortalidade e em medicação adicional. A conta chega depois, em outra fase, em outra linha da planilha, às vezes sob a responsabilidade de outra pessoa.

E é aqui que a economia da coisa fica clara: a creche não é um centro de custo. É a matéria-prima da fase que custa 63%. Um leitão descrechado não é um produto, é um insumo — e a qualidade desse insumo determina o rendimento do maior investimento que a granja vai fazer naquele animal.

Por isso a perda passa batido. Ela é gasta em um lugar e contabilizada em outro, com quase cem dias de distância entre causa e efeito. A granja não erra o número. Erra o lugar onde procura.


Por que isso não aparece no controle da granja

O motivo não é falta de controle. É que os sistemas de controle são organizados de um jeito que não permite enxergar essa conexão.

O sistema zootécnico fecha a creche com os indicadores da creche: ganho de peso diário, conversão, mortalidade, peso de saída. Fecha a terminação com os indicadores da terminação. Cada fase é avaliada contra as próprias metas, e cada uma pode parecer razoável isoladamente.

O financeiro, por sua vez, fecha por período — mês, semestre, ano. Não fecha por lote.

Falta a pergunta que atravessa os dois: o desempenho da terminação deste lote tem relação com o que aconteceu na creche dele? Nenhum dos dois sistemas foi construído para responder isso, porque cada um foi construído para outra finalidade — e ambos cumprem bem a finalidade para a qual existem.


O que fazer com isso

O trabalho técnico da creche é do veterinário e do nutricionista: sanidade, ambiência, densidade, manejo de desmame, curva de consumo, transição de dieta. Eles resolvem isso melhor do que ninguém, e não é a Artemis quem vai dizer como.

O que costuma faltar é anterior, e é econômico. Saber quanto a sua creche custa por leitão, e onde esse número está em relação a outras operações.

Porque R$ 95 por leitão descrechado não é bom nem ruim isoladamente. Pode ser caro para uma granja que entrega leitão de 22 quilos e barato para uma que entrega de 28. Pode significar ração de qualidade ou desperdício. O número sozinho não conta a história — ele só significa alguma coisa quando existe algo fora da granja contra o que compará-lo.

E vale a observação que fecha o raciocínio: se a fase mais barata do sistema é a que mais separa as granjas, então é possível que a maior oportunidade não esteja onde há mais dinheiro em jogo. Esteja onde há menos atenção.


Perguntas frequentes


Quanto custa a fase de creche na suinocultura?

Nas granjas acompanhadas pela Artemis, passar um leitão pela creche custa em torno de R$ 88, com variação de cerca de R$ 60 a mais de R$ 130 entre operações. Isso representa aproximadamente 12% do custo total do cevado.


Qual fase da produção de suínos custa mais?

A terminação, com cerca de 63% do custo total do cevado. A maternidade responde por aproximadamente 24% e a creche por 12%. O custo é acumulativo: cada fase carrega as anteriores.


Quanto custa um leitão desmamado e um leitão descrechado?

Nas granjas acompanhadas pela Artemis, o custo acumulado fica em torno de R$ 169 por leitão desmamado e R$ 255 por leitão descrechado. O nascido vivo custa cerca de R$ 83 e o cevado terminado, cerca de R$ 696.


Por que a ração de creche é mais cara?

Porque o leitão recém-desmamado tem sistema digestivo imaturo e acabou de sair de uma dieta líquida. As rações pré-inicial e inicial exigem ingredientes de altíssima digestibilidade — fontes lácteas, plasma, aditivos e enzimas —, que elevam o custo por quilo. Como a fase é curta e o animal é pequeno, o volume consumido é baixo e o custo total da fase acaba sendo o menor do ciclo.

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